Há poucos dias, recebi uma boa notícia – entre algumas que passam pela tela do meu computador, diariamente – que trazia uma solução, aparentemente simples, diante da complexidade da questão da mobilidade em centros urbanos, em dias de verão chuvoso.
Diante disso, puxei da memória uma reflexão, dessas que permeiam todas as áreas do conhecimento e que considero estrutural. Estou me referindo ao fato de geralmente relacionarmos “complexo” a “complicado”. Como já me vi algumas vezes diante deste desafio conceitual, compartilho que entender a complexidade de um determinado assunto não significa incluí-lo na categoria das coisas complicadas, muito pelo contrário.
Os que se aventuram na maratona acadêmica da compreensão da Teoria da Complexidade, têm maior facilidade em entender como sistemas se adaptam apesar de complexos e diferentes, gerando um equilíbrio.
Aqui, faço minhas, as palavras de um mestrando cujo trabalho encontrei na internet:
Nos organismos vivos, a complexidade reflete no entendimento de que o todo está nas partes e a parte está no todo (interação, cíclico e relacional). Assim, ao compreendermos que todas as atividades de um sistema podem ser consideradas “parte” e seu fim o “todo”, a complexidade não será tão complicada, mas nunca deixará de ser complexa.
Esta introdução da qual me muni, tem uma razão de ser bastante simples: tentar despertar em você, leitor, um olhar mais desprovido de críticas – ainda que, em se tratando do tema da mobilidade em dias de enchentes, isso seja realmente o mais natural. Nesta tentativa, compartilho o conteúdo da tal boa notícia que me chegou à tela há poucos dias:
“Asfalto antienchente” está sendo testado em São Paulo
O asfalto poroso foi criado há mais de 20 anos para resolver o problema da aquaplanagem. Agora, com financiamento da prefeitura, pesquisadores da Poli-USP testam uma nova tecnologia de asfalto que retarda em 50% a velocidade com que as águas chegam aos rios e córregos da cidade. Uma pista teste, construída na USP(Universidade de SP) é diferente das estradas porque tem um revestimento plástico no fundo, para evitar que a água poluída contamine o solo e eventualmente o lençol freático.
O asfalto que está em teste custa 25% a mais do que o usado no revestimento tradicional, porque exige uma matéria prima de melhor qualidade e um plástico que não existe na técnica tradicional. Outro fator que encarece o produto é que a usina precisa de uma regulagem diferente para produzi-lo – precisa parar até um dia para fazer os ajustes.
Além disso, o material tem uma restrição: não pode ser usado em avenidas de trânsito pesado, como as marginais. O máximo que ele resiste são caminhões de pequeno porte ou caminhão de lixo uma vez por dia.
Interessada, resolvi dar uma chance ao experimento e, como hoje não é preciso ir muito longe, arrisquei “um Google” no assunto, o que rendeu informações valiosas. Descobri que no Brasil, o asfalto poroso já é usado em trechos da Nova Dutra e que há pelo menos uma década a técnica é usada nos EUA e Europa.
Quanto à questão do custo 25% acima do asfalto tradicional, especula-se que esse fator sumiria se uma usina produzisse exclusivamente o novo tipo de revestimento. E quanto à restrição do uso em avenidas de trânsito pesado, também encontrei uma segunda opinião. Regina Monteiro, da Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), afirma que 40% das ruas de São Paulo poderiam receber o asfalto poroso e ressalta que há outras opções de uso para o material. Cidades como Denver, nos EUA, oferecem incentivos fiscais para quem usa asfalto poroso em estacionamentos.
Fiquei contente de perceber que esta solução, aparentemente simples e parcial, ganha corpo quando parte de um todo interrelacional. Além disso, esta seria apenas uma – mas não menos importante – iniciativa, que aliada a outras pode melhorar a situação da locomoção, qualidade de vida e segurança em centros urbanos.
Diante destas constatações, reafirmo minha crença, de que neste início de século XXI, marcado como ponto de partida de grandes transformações, o desafio é que a complexidade não seja mais um fator intimidador. Aceitá-la e compreendê-la deve ser o real desafio para, assim, conduzi-la da melhor forma possível. Cruzar os braços diante do complicado é coisa do passado.
Carol Romano